
Malange
De carro pela estrada nacional 210 fomos ter à Malange. Uma ida calma, numa estrada arranjada e larga. De alargada ela merece destaque mas peca no afunilamento nas pontes. Elas se tornam perigosas pela quantidade de carros q para ela convergem. Chegados a Malange foi tristemente decepcionante a forma como a encontrei.
Revi a escolha Che Guevara onde fiz a minha primária, revi as ruas por onde fugia da escola (com a professoara e colegas a minha tras) e vi onde parava no final dessa “berrida”. O bar Arcadia que na altura, para mim, tinha o melhor chá com pão. Vi a Hojy Ya Henda onde fiz a 5ª e a 6ª e depois passei pelo Liceu onde fiz o Ensino Médio. A maxinde foi outro ponto de reencontro com o passado numa nostalgia quase lacrimejante, não fosse eu proibido por mim mesmo de chorar a uns bons anos atrás. Vi o cine Maxinde. Nele aprendo a aprofundar o meu vício pelo cinema, aprendendo a projectar, aprendendo a colar fitas rebentadas pela velocidade da máquina que projectava e ate a vender bilhetes e a ordenar a entrada. Lembrei-me das vezes em que me punha numa sala por lá a desenhar cartazes do Hiakari, do Zorro, do Fantasma para simular cartazes de filmes que na verdade não passavam disso mesmo... “filmes”. Ou seja: cartazes novos e diferentes mas no ecrán o mesmo filme. Lembro especialmente de dois como “Sol Branco do Deserto” e “Tribo Masai”. Mais tarde surgiu outro que ficou por lá imenso tempo. Está lá tudo... ou melhor nada. Tudo abandalhadamente abandonado. Partido, sujo, inexistente e com que um fantasma a querer surgir ou até qual Fénix.
Mas é Malange com os seus cantos e recantos e agora sem recantos porque até esses estão expostos à falta de inteligência, de vontade política, do sentido e respeito pela Nação e pela forma desumana com que se resolvem, ou deixam de se resolver, questões que deveriam de ser um bem de todos e de cada um para que o país fosse então “uno e indivisível”.
Diz-se que o problema foram as pessoas que foram dirigir a província. Será? Ou será de quem as menteve ou as deixou estar nesse lugar ou posto? Está um novo por lá. Vamos ver agora se o cardoso terá uma Boaventura... resta esperar, embora me sinta livre de me expressar pela frase de Neto quando escreveu “impassiento-me nesta mornez histórica de esperas e de lentidão.”
Haver vamos se havemos de voltar à nossa Malange áurea dona e senhora de qualidade de vida, desde o algodão às vacas do Sila que todas às manhãs nos alimentavam de leite natural e freco.
Volto lá na quanta-feira (21) e como fico 4 dias, vou com certeza procurar por lugares onde namorei, onde brinquei e claro (re)ver os meus amigos e quero também ver, se possível, meus antigos professores. Teimoso como sou, acho q consigo.

Huambo
Eram 8h30 e estavamos a ser chamados para seguir para o avião que nos iria levar ao Huambo. A cidade vida. Foi vida minha durante alguns bons e maus dias. Intermináveis e mesmo ineguros dias nos tempos das FAPLA aquelas que quando chegassem era melhor desaparecer.
Postos no avião fui, claro lendo o Jornal de Angola e me diliciando com algumas notícias até ser autorizado a ligar o computador.
Estou de regresso ao Huambo de onde saí em 1991, no finalzinho da guerra, no iníciozinho daquela paz assinada em Bicesse e que no final vimos que uma das partes não havia assinado apesar de ter dito que “as armas já não têm razão de ser”.
Espero uma cidade linda, maravilhosamente a crescer pelas informação que vou recebendo da comuncação social e dos amigos que insistentemente para lá se deslocam. Espero uma cidade linda depois de ter cruzado com duas pessoas que conversavam entre si e de um deles ouvi “epa, Huambo aqgora? É oroooppppaaaaaa...” Ouvi retive e me lembrei que seria Europa. E cá estou, sentado no Embraier da Air26 (a ir 26 para alguns) e com alguma ansiedade me revejo a pisar o solo daquela província que de tão mártir no exemplo de sofrer com coragem se tornou exemplo de se erguer com dignidade.